quinta-feira, 15 de março de 2012

Retomada

O ano de 2012 começou uma loucura só, mas é com prazer que anúncio, neste pequeno post, a retomada de um importante projeto em minha vida.
Em um dia conturbado com correria em hospitais com meu pai, cobertura de evento político e empresarial, uma dor nas costas horrível e em meio ao agradável, mas turbulento processo de gravação da banda Tedect, retomo a digitalização do meu romance “A Linha do Trem”.
Em breve os leitores irão poder viajar pelas histórias que até o momento só conto para amigos. Despejando-se por inteiro nas páginas e nos trilhos dessa ficção, espero vocês na estação terminal!
Segue um trecho:
O APITO DO TREM ERA OUVIDO DE MUITO LONGE. A locomotiva seguia pelos trilhos, floresta a dentro. O manto negro da noite cobria o céu e uma fina garoa molhava as plantas do jardim da casa. No quarto, arrumado e com o leve perfume de colonia feminina, está aquela senhora sentada na ponta da cama. Ela mantinha seus olhos numa pilha de cartelas de comprimidos e frascos de remédio tarja preta esquecidos numa velha cômoda em mogno. Vestígios de uma depressão que, graças a Deus, se perdera no tempo. Iam todos para o lixo. O problema foi expulso daquela casa e aquilo tudo, finalmente, havia acabado.

Marcos Ferreira Silva

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Doente do quê?

Ilustração - Denis Freitas
Essa crônica é um oferecimento de eu mesmo para mim mesmo. Pois é. Às vezes tenho a total certeza de que não sou o sujeito mais normal da face da Terra.
Em época de fim de Carnaval, meu ânimo continua lá embaixo. Sou ruim da cabeça e doente do pé. Não gosto da festa do samba. Não odeio o samba, apenas não sou um dos tantos fãs. Isso para a maioria é crime. Não sou radical, apenas não gosto das comemorações.
Sou ciumento ao estilo anos vinte. Temendo perder o broto na multidão. Enciúmo dos amigos e dos papos despretensiosos no portão de casa. Quadrado para muitos, mas são apenas ciúmes.
Ciúmes! Boa! Ponto interessante para mudar todo o enredo deste humilde texto. Ciúme é algo que todos podem ter de você, mas você não pode ter de ninguém.
Sua garota tem ciúmes de você (garota? – que jargão mais quadrado!) com os seus amigos, com seus pais e com todos os membros de sua família, com as amigas dela, com os colegas e principalmente com as colegas de trabalho, com toda a rede do Facebook e acho com todos do planeta.
Claro, nunca admitido. Mas ouse eu, pobre macho Ômega (o Alfa não te pertence mais – que fique bem claro) ter ciúmes dela com o carinha que lhe presenteia com chocolates? Possessivo.
Daí, eu em pura neurose começo mesmo a ser possessivo. Ciúmes até da sombra sem maldade (péssimo trocadilho). Aí eu me pergunto: Quem és tu, triste autor desse texto? Ciumento, não gosta de Carnaval nem de calor, não curte comemorar o próprio aniversário, não entende bem o Twitter, odeia funk, gosta de ficar em casa, ama o inverno e deseja o poder de exterminar o BBB?
Respondo: um doente do mundo esperando doses de normalidade e sensatez... começando por mim...
Marcos Ferreira Silva

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Aqui, agora, de todo coração

Esse texto não é meu, mas peguei emprestado por ser um relato sincero aos sentimentos.
Como fazer a escolha mais delicada da sua vida?
Escolher é difícil. Pergunte a um psicólogo e ele vai explicar por que gente obrigada a optar entre uma coisa e outra – qualquer que sejam essas coisas – sente ansiedade. Isso acontece em lojas de sapato, em restaurantes, na porta do cinema e até no sexo. Uma amiga me contou outro dia como foi estar numa festa e ter dois homens sedutores dando em cima dela. “Tive de escolher um deles, mas com um aperto no coração”, ela me disse. No dia seguinte, o bonitão que ela escolheu caiu no vácuo e nunca mais deu notícias. Escolher, ela aprendeu, é abrir mão de alguma outra coisa - e as consequências podem ser irreversíveis.
Infelizmente para nós, nem todas as escolhas são tão simples quanto a do sexo na balada. Penso na escolha mais delicada que a gente faz na vida, aquela que envolve os parceiros de longo prazo. Em que momento concluímos que uma pessoa deixou de ser apenas item de prazer ou fonte de encantamento e se tornou a criatura com quem vamos dividir a vida? Pode ser casando, comprando apartamento e tendo filhos, ou, de forma menos ritualizada, pondo os sentimentos e necessidades dela no centro da nossa vida, mesmo vivendo em casas separadas. O compromisso é parecido, assim como os caminhos que levam a ele.
A primeira coisa que conta nas grandes escolhas – eu acho - é a permanência. Ninguém tem direito a reivindicar um posto dessa importância sem ter ralado um tanto. Não adianta a Fulana decidir, em 30 dias, que vai ser sua mulher para o resto da sua vida. Não funciona assim. O teste do tempo é fundamental. Se aquela mulher ou aquele sujeito continua lá depois de todas as discussões e inevitáveis desencontros, se ela ou ele resolveu ficar depois de todas as chances de ir embora, se os seus sentimentos em relação a ele ou ela continuam vivos, um bom motivo há de haver. 
É essencial, também, que a experiência de convívio seja boa. Amores tumultuados dão bons filmes e péssimas vidas. É essencial acordar no sábado e ter vontade de ficar mais tempo na cama, enrolado naquele ser ao seu lado. Se a conversa antes de dormir deixou de ser gostosa ou se qualquer programa parece mais interessante do que a companhia dela ou dele, para que insistir? O prazer que o outro proporciona é essencial. Prazer de transar, prazer de olhar, prazer de ouvir, prazer de simplesmente estar. Se você caminha pela rua com ela e os dois são capazes de rir um com o outro, algo vai bem. Se você passa a tarde com ele no sofá, lendo ou transando, e o dia parece perfeito, eis um bom sinal. A felicidade não tem receita, mas a gente percebe quando está funcionando.
Para que as coisas funcionem no longo prazo é essencial haver lealdade. Eu cuido, eu protejo, eu respeito – e você faz o mesmo comigo. Se você não sente que seus sentimentos e a sua vida são importantes para ele ou para ela, desista. Como o ambiente lá fora é hostil, é essencial saber que no interior da relação existe cumplicidade e abrigo, com um grau elevado de honestidade: você diz o que pensa e isso vai ajudar, ainda que doa. É impossível prometer que coisas ruins jamais irão acontecer, é falso garantir que os sentimentos permanecerão os mesmos para sempre, mas é essencial olhar nos olhos do outro e sentir a disposição de tentar, verdadeiramente, que seja assim. Aqui, agora, de todo o coração, tem de ser para sempre – ou então a gente nem começa.
Se tudo isso existir – e não é fácil – ainda fará falta um quarto elemento, essencial ao equilíbrio duradouro das relações: os planos. Se ele que ter cinco filhos e você não quer ser mãe, não vai rolar. Se ela quer levar uma vida de viagens e aventura e o seu sonho é ficar aqui mesmo, perto das famílias e dos amigos, não deu. Viver bem pressupõe afinidades essenciais de gosto, sentimento e expectativas, sem falar de ideologia. Todas essas coisas se refletem nos planos. Eu penso no amor como um voo de longa distância. O avião precisa estar carregado com o tempo da relação, com o prazer que ela proporciona e com a lealdade em que ela está baseada – mas as pessoas ainda têm de concordar sobre o destino. Se eu quero ir à Tóquio e você à Nova York, precisamos embarcar em vôos diferentes.
Ivan Martins – Revista Época

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O aniversariante por fotos e canções

São Paulo fez 458 anos, e eu, na correria de sempre, típica dessa cidade, não tive sequer tempo para parabenizar essa terra que recebe declarações de amor e ódio todos os dias.
Os poetas da música ao longo dos últimos 50 anos fizeram retratos precisos da metrópole da agitação, que não é o Rio, mas também é o cenário da beleza e do caos...
Sampa
Caetano Veloso
Rua Xavier de Toledo, em 1957
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vende outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso
Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
E os novos baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa

Marcos Ferreira Silva

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Segredos


“A vida é realmente uma caixinha de surpresas” -, isso é tão clichê e tão verdadeiro. Isso acontece pelo fato de sermos lotados de coisas secretas, cofres enfiados peito abaixo. Ninguém nesse mundo tem uma vida que seja realmente um livro aberto, mesmo que seja, nem todos pararão para ler. Talvez quem venha até ti vai procurar um capítulo específico, qual o lê e vai embora.
Além disso, enquanto a pessoa lê você está escrevendo mais páginas. Compulsivo e aficionado ao deslumbre do que acontece. Uma espécie de Stephen King da rotina da vida real. Outra pessoa não sabe que montas uma nova página desse livro que tolamente chamamos de vida.
Vida... Algo que nasce, se desenvolve e apaga, como um candelabro em uma ventania... a vida... misteriosa como é, a luz proveniente dessa tocha de fogo não cobre tudo que queríamos cobrir. Se cobre de um lado, descobre de outro.
Nesse espaço, entre uma lapada de luz e outra, objetos ficam no breu do anonimato, coisas que apenas nós sabemos. Quando lembramos fingimos esquecer, se esquecemos um dia a memória traz de volta, como um sumo sacerdote, fiel e vivo como sempre fora.
É dessas lacunas que se fazem os grandes mistérios que cada um de nós carrega. Não adianta fingir que não possui isso. Todos nós somos dependentes desses segredos que adocicam ou amargam nossa vida. Contar-lhes pode ser loucura ou sacrifício, esconder é tortuoso e triste.
É aquilo que quer falar e não fala, que quase sai como um grito, mas termina mesmo é num sussurro, apático e inexpressivo. E carrega-o como uma leve dor de cabeça em uma quarta-feira à tarde, da qual não consegue se livrar, mas que também não lhe cabe reclamar. Leva em silêncio, enquanto a dor inflama, piora a olhos vistos, mas sem que você se pronuncie a respeito.
E a dor que já lateja te consome, e você, abominando aquilo tudo, toca em frente. Mudo, à base de analgésicos, escondendo de si mesmo aquilo que gostaria de esquecer, torcendo inutilmente que passe após uma revigorante noite de sono. E consideras aquilo normal e corre ao trabalho na manhã seguinte.
Marcos Ferreira Silva

domingo, 22 de janeiro de 2012

Rita Lee Jones e a saudade do Rock Brasuca

A Rita Lee vai deixar os palcos, e isso me assustou. Mais uma do bom rock brasileiro que sai de cena, talvez a melhor, a rainha.
Quando a vida ou o esquecimento não os levam, o corpo cansa. A rainha não reinará nos palcos, mas ainda dará o ar da graça e do talento em novos álbuns que prepara ainda para lançamento esse ano.
“Aposento-me de shows, da música nunca”, declarou Rita Lee no Twitter. O último CD lançado por Rita Lee foi "Balacobaco", em 2003.
Desde os tempos de Mutantes, fase que pouco é lembrada por ela, Rita é a garotinha do rock. Para Caetano Veloso, a dona “da deselegância discreta” das meninas de São Paulo.
Hoje, a soberana larga o palácio, mas não o reinado!
Agora eu pergunto: Será que ela deixou uma herdeira?

Marcos Ferreira Silva

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Criolo e a sua faceta de fazer música

Em 22 anos de carreira, o músico paulistano do Grajaú fez do rap um grito preso na garganta da periferia, mas ele foi além. Criolo ganha a cada dia o respeito do público e da crítica por causa da sua impressionante versatilidade musical.
Quando a MTV começou a vincular o clipe da música “Subirusdoistiozin”, o público que ainda não conhecia o trabalho do artista podia imaginar que era um bom cantor de rap, com um vocal diferenciado, e letras cheias de metáforas e gírias escancaradas com muita criatividade, como prova o nome da própria faixa em questão, escrita conforme se é pronunciado.
No bom e velho rap, o MC, como gosta de ser chamado, tem uma voz mais escrachada, não pelo lado negativo, mas incorporando a mensagem real implantada em suas letras repletas de rimas e críticas sociais.
De repente, você ouve um som do Criolo Doido, hoje somente Criolo, que mais se parece com a introdução de uma canção de Os Paralamas do Sucesso, isso é “Bogotá”, faixa que abre o seu segundo disco, “Nó na Orelha”, de 2011 – isso mesmo, o segundo disco em 22 anos de carreira. A música viaja entre um afrobeat e o ska, com uma letra carregada de críticas e metáforas.
As ousadias do disco são ouvidas faixa a faixa. O samba “Linha de Frente” e o dub “Samba Sambei” são outros exemplos de como esse rapper de coração pode alcançar outras linhas musicais sem perder a essência. Mas lá também está o rap que estávamos esperando ouvir desde o início em “Grajauex”, “Sucrilhos” e “Lion Man”, além do samba misto com rap e batidas afro “Mariô”.
O músico disse em entrevista à jornalista Marilia Gabriela, em seu programa De Frente com Gabi, que para ele a música brasileira é muito rica e merece ser explorada. Artista por natureza, Criolo defende sua música e defende sua poesia com sinceridade de quem pode passear pelo rap, soul, samba, rock e ser pop sem intenção pragmática de ser diferente.
O instrumental de todo o disco é rico em cordas, metais, piano, percussões e pick ups, perpetuando as diferenças do álbum em relação aos outros discos de rap, se assim podemos chamar o nó nos ouvidos que o trabalho de Criolo nos causa.
E o disco ainda surpreende muito mais. Criolo criou um retrato de São Paulo, “Não existe amor em SP”, digno de se juntar aos poemas paulistas de mestres como Caetano Velozo (Sampa) e Adoniran Barbosa (Trem das 11). Falando de um modo contrário aos demais relatos, Criolo não enxerga o amor tradicional existente em SP, mas mantém a beleza e a confusão que é a própria cidade, ouso dizer, chegando ao topo da sua poesia.
Outra dose musical de bom gosto do álbum é o quase bolero “Freguês da meia-noite”, no qual o cantor alcança um tom vocal que surpreende. Grave e às vezes sussurrado, como Julio Iglesias em sintonia com a lembrança da voz de Nelson Gonçalves, provando que a boemia aqui está de regresso.


Para fazer o Download do disco completo, clique aqui

Marcos Ferreira Silva