quinta-feira, 30 de junho de 2011

O Brasil tem história!



O nosso país é Pop! E isso não é ruim. Mesmo que muitas pessoas achem exatamente o contrário, eu acho isso surpreendente. O mundo vive um colapso de personalidade, graças à internet. È tudo em demasia, e é tudo vulgarmente esquecido.
Não é para provocar que estou falando isso. Mas é fato que as novas tecnologias mudaram o perfil de todas as nações, mas agora, ainda imerso em todas essas “revoluções por minuto”, percebi que coisas boas estão acontecendo.
Com tudo que o nosso país sofreu, e ainda sofre, mas agora de um modo diferente, pois não podemos ser inocentes e achar que a violência não existe, que a miséria se dissipou ou que todos são, misticamente, felizes. A perfeição está bem longe de nós.
Porém, se foi a ditadura, já tivemos grandes poetas, fizemos músicas maravilhosas, ganhamos copas do mundo. Até tragédias e causos surpreendentes nós já tivemos. A repressão cultural não existe hoje, existe o mau gosto, mas isso sempre existiu.
Depois de vivermos a mercê de portugueses e militares, grandes artistas cantaram e nos mostraram a história da melhor forma. Gênios, que dificilmente serão superados, poetizaram a vida.
Antes, o país não tinha dinheiro, hoje tem. Falta para boa parte do povo, mas isso é consequência do capitalismo. No entanto, algumas coisas ficaram melhores. Isso sem defender governo Lula ou FHC, nem falar que Dilma é a melhor e eticetera e tal, mas que houve uma evolução, isso houve.
Mas o que me deixa feliz é que temos histórias pra contar. Por qual motivo comecei toda essa história? – você deve estar se perguntando. Acabei de ver um clipe com a linda e talentosa Aline Moraes e o premiado Wagner Moura cantando Tempo Perdido da Legião Urbana.
Trata-se do material de divulgação do filme “O homem do futuro”, que estreará somente em dois de setembro. E sabemos que quando o filme é anunciado com muita antecedência, existe, ao menos, a expectativa de sucesso. Algumas vezes essa expectativa é suprida com uma decepção, mas esse não parece o caso.
Achei de início que essa onda não passava de um golpe de marketing fulo (provavelmente Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos não estejam gostando nada disso), mas depois do bem sucedido clipe de Eduardo e Mônica que agitou a internet, durante a espera pelo longa Faroeste Caboclo, achei que a verdade era outra.
O que temos é história pra contar e reviver. E todo mundo gosta de uma boa história. Agora, temos tantas. Há poetas para recitar, tristezas para chorar, magoas para curar, e segredos para contar. Por que não fazer? Merecidas homenagens!
Claro que ainda há muito para se viver, e amanhã teremos novas histórias. Como diria o bom e velho Chico Buarque: Avoé, jovens a vista! Mas em tempos de tanta tecnologia, é a Legião, extinta no distante ano de 1996, que está nos trending topics do twitter.
Marcos Ferreira Silva

segunda-feira, 27 de junho de 2011

“Hey mãe! Eu tenho uma guitarra elétrica”

“Durante muito tempo isso foi tudo o que eu queria ter”. É verdade, isso não é uma simples referência à canção do mestre Humberto Gessinguer. A música dos Engenheiros do Hawaii, lançada no longevo ano de 1987, é uma crítica que marcou época e continua presente até os dias atuais. “A juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes”. Grande verdade. Que a diga o NX Zero e sua Coca-Cola.

Mas esta citação não tem a ver com o toda a filosofia do gaúcho Gessinger, mas com a primeira lembrança que tenho dessa música. Ainda menino, lá com os meus sete ou oito anos, fui querer aprender a mexer no aparelho de som com CD novo que tinham comprado lá pra casa. Finalmente a tecnologia dava um chega pra lá naquele som ‘ruizinho’ das fitas K7. Sinto saudade dos discos, mas das fitas não.
Tentando descobrir como se manuseava aquela geringonça, peguei alguns CDs que tinha em casa. Os primeiros de tantos que viriam. Passei pelos Raimundos e o seu clássico “Lavo ta novo”, novinho em folha, por um álbum de canções natalinas do Ivan Lins e parei numa coletânea dos Engenheiros. Lá na faixa nove me deparo com uma música serena, só com duas guitarras e mais nada. Me espantei, pois na minha santa ignorância, achava que a tal guitarra elétrica só servia para estourar os tímpanos da minha mãe. Era o que ela dizia. 
Acho que foi o meu primeiro contato efetivo com a música e em especial com o universo dos arranjos instrumentais. Daí eu percebi a riqueza do som e o seu infinito de possibilidades. Quem me propôs isso foi um par de guitarras elétricas num jogo de solos e dedilhados. Há 80 anos as guitarras propõem isso aos jovens de todo o mundo.
Blues, Jazz e principalmente o seu filho mais rebelde, o Rock (que passa por uma fase de tão bom moço que até assusta), são os principais representantes que carregam a injustiçada guitarra em suas essências. O que seria do rock sem a genialidade de Jimmy Page, os solos esfuziantes de Slash, o delírio de Kurt Cobain, a criatividade de Jack White e até mesmo e pioneirismo de Jimi Hendrix? Essa é uma pergunta até fácil de responder: o rock simplesmente não existiria!
O som doce das cordas daquela mutação do tradicional violão tomou os anos 50 e revelou um ritmo dançante com Bill Haley e Elvis Presley. Virou décadas com Beatles, Rolling Stone e a soberania da lenda viva Keith Richards, Van Halen, Bom Jovi e um infinidade de nomes pops e underground.
O peso sujo das distorções possibilitaram criar filhos mais rebeldes ainda. O Punk dos sinistros Ramones e Clash , o metal do Iron (que dispensa o Maiden de tão clássico), e do Metallica, que tem metal até no nome, não seriam os mesmos. Se é que eles teriam existido.
No Brasil, a guitarra fez um estardalhaço só. Em meio à ditadura militar, engajados jovens artistas como Gilberto Gil e Elis Regina, dentre tantos notórios nomes, estiveram em uma passeata contra o uso da guitarra elétrica na música brasileira, com o intuito de tirar um instrumento que era visto como símbolo de uma internacionalização da nossa cultura.
Engraçado que praticamente todos os envolvidos na manifestação entenderam que o protesto era descabido, tanto que Gil hoje anda com uma guitarra nos braços em boa parte de seus shows e Elis teve o doce som do instrumento em uma de suas principais canções: Como Nossos Pais.
Com o tempo, a guitarra se mostrou versátil e totalmente possível em diversos ritmos. O sertanejo romântico usa e usou até dizer chega, o samba contemporâneo de Jorge Ben ganhou identidade com as experiências do nosso Filho Maravilha. São tantos exemplos que ficar falando é pura demagogia.
A conclusão é que a guitarra é hoje uma senhora, respeitada, mas recatada e ressentida nunca.


Marcos Ferreira Silva

sábado, 23 de abril de 2011

Ele já falava sobre vampiros muito antes de 'Crepúsculo'

Hoje vou reproduzir uma resenha sobre o novo livro do escritor paulista André Vianco, feita pelo jornalista Renato Pompeu, do caderno cultural do Diário de São Paulo.
Renato conseguiu falar de Vianco sem exaltá-lo como os fãs, mas mostrando a razão do seu valor literário. Então, vamos ao texto:
É surpreendente a desenvoltura e a facilidade com que o escritor, ex-entregador de pizzas, ex-editor de seus próprios livros e ex-vendedor de mão em mão André Vianco revela neste romance "O Caso Laura" (272 páginas, R$ 32,50), o primeiro de sua autoria lançado pela Editora Rocco, com chegada às livrarias em todo o País prevista já para o próximo dia 2. A tiragem inicial prevista é de 30 mil exemplares (normalmente os romances brasileiros são lançados em 2 mil ou 3 mil exemplares, ou até menos).
Misto de romance psicológico, policial e sobrenatural, este trabalho de Vianco - que, com doze livros publicados, já vendeu perto de 500 mil exemplares - mostra que o autor, de origem modesta, é um artista de grandes recursos literários, que domina como poucos grandes autores a técnica de escrever bem, com ritmo que, na forma e conteúdo, envolve imediatamente o leitor e a leitora. Na forma porque, visivelmente com muito esforço e muito trabalho de carpintaria literária, escreve textos ao mesmo tempo atrevidamente novos, com frases que nunca foram escritas antes, e, ao mesmo tempo, imediatamente assimiladas pelo leitor e leitora como coisas bem conhecidas e com as quais se sente logo de início uma confortadora familiaridade. No conteúdo, porque sabe criar uma trama intricada.
Dirigido sempre ao grande público, e, por isso, passível de ser chamado de "popularesco" pelos críticos universitários, Vianco, na verdade, é um autor que sabe construir o caráter de cada personagem, e apresentar esse caráter pelas falas e pelas ações dos mesmos, sem ter de apelar para o recurso artisticamente inferior de descrever ou analisar a personalidade de cada um. Ele prefere aqui o caminho mais difícil. Sabe como burilar uma frase, tornando-a agradável aos ouvidos; sabe como concatenar uma trama, sabe como manter ininterruptamente o suspense sempre renovado em curtos intervalos da narrativa, e como alternar as situações e os personagens.
Neste "O Caso Laura", um detetive particular é contratado por um idoso desconhecido para investigar os encontros de uma mulher chamada Laura, restauradora de imagens sacras, num banco de jardim, com um homem misterioso. Há outros tipos envolvidos em outras situações, como o policial que é investigado por uma agente da Corregedoria por ser suspeito de homicídios que teria praticado como justiceiro. Tudo, porém, entrelaça-se e os diferentes mistérios vão se adensando progressivamente, até o surpreendente desenlace esclarecedor.
Em suma, Vianco é um narrador hábil e com desenvoltura. Como poucos escritores, mesmo entre os mais famosos, todas as técnicas da arte literária e do artesanato de bem escrever ele conhece. Apenas pôs a sua pena a serviço, não da chamada grande arte tal como a concebiam os críticos universitários tradicionais, nem de uma "conscientização" de seus leitores e suas leitoras tal como a imaginavam os escritores ditos engajados. Ele visa simplesmente entreter agradavelmente seu público. Com isso, presta serviços a um leitor que, nas selvas urbanas de hoje, carece de emoções. Um trabalho tão digno quanto qualquer outro, que lhe garante a situação de ser um dos poucos escritores, no Brasil, a sobreviver apenas de seu ofício. Em tempo: o livro já é um roteiro de filme.
Renato Pompeu
DIÁRIO SP

segunda-feira, 7 de março de 2011

Essência

Talvez eu sinta saudade de fazer um rock, porque bom rock poucos que fazem
Muito provável eu queira pular do palco fazendo poesia
Quem sabe eu beba da água pura da essência da pedra fundamental
Que o som delirante do rock de Élvis, filtrado nas notas do Metallica, aromatizado pelo Rolling Stones e com um caldo de Radiohead me chegue com um paladar criativo de puro e simples REM...





Marcos Ferreira Silva

Há muito tempo atrás

(Texto produzido em novembro de 2010 – resgatado da lixeira do computador)
Hoje vai acontecer aqui em São Paulo o show do Sir Paul McCartney. É impressionante ver como as pessoas se emocionam e se jogam nos braços da loucura com a vinda do velho beatle. Em tempos assim, a TV mostra matérias sobre a vinda do ídolo, a histeria dos fãs e, o que eu mais gosto; imagens de arquivos.
A gente fica meio ‘abobado’ quando vê os quatro rapazes de Liverpool sendo seguidos por garotas ensandecidas, admirados por garotos de todo o mundo e respeitados por todos os senhores e senhoras que os assistiam de suas poltronas.
Pensar que eles eram quase crianças. Com seus poucos 18 anos eram donos de uma carreira e um talento único.
Enquanto lia uma revista, vi que na inauguração da cidade de São Paulo, no famoso pátio do Colégio, o tão estudado José de Anchieta ainda era um rapazote de 19 anos.
Hoje, estava vendo alguns títulos numa livraria e me deparei com uma biografia de Arthur Rimbaud e enquanto folheava as páginas, com o agradável cheiro de livro novo, descubro que suas obras mais significativas foram escritas antes dos 20 anos. No auge da minha ignorância, não sabia dessa informação. Não sabia, mas podia imaginar. Álvares de Azevedo, Jim Morrison, Renato Russo e até Jesus Cristo eram novos durante o ápice de suas vidas ou carreira.
Acho que a juventude é enigmática. O jovem é dono de uma força e uma expressão que em nenhuma outra época ele dominaria. Tenho a impressão de que Deus sopra em alguns cantos uma inquietação fora do habitual e cria seres fantásticos, únicos em uma linhagem.
Não acho que sou dono deste talento, mas, como vários jovens, tenho boas histórias pra contar.
Quando tinha 14 anos, resolvi, por puro interesse, tocar na paróquia perto de casa. Ressaltamos que Deus é muito ágil e fez desse meu abuso um fato lindo. Lá formei amizades inacreditáveis e juntei velhos amigos numa só equipe e, acima de tudo, me construí gente com sentimentos de alegria, amor e até o desgostoso ressentimento.
Eu era só um garoto que sabia tocar violão e amava os Beatles, os Rolling Stones e a Legião Urbana.  E não suportava as músicas que tocavam lá na igreja de acústica admirável. Tudo muito paradoxal, eu sei, mas era realmente assim. Eu queria tocar lá, não sabia exatamente por qual razão.
Lembro que minha primeira missa foi um desastre – para mim, porque para os demais de nada importavam, pois meu violão estava desligado.
Com o tempo, migrei de grupo umas duas vezes até que surgiram três garotas que cantavam razoavelmente mal, mas uma delas era minha paixão – talvez um amor fulminante – e com esse argumento e mais a possibilidade de tocar minha esquecida guitarra eu fui. Não podia ter feito escolha melhor.
O tempo foi passando e fomos ganhando forças. As três garotas de vozes que se modelavam perfeitamente com o tempo, e o esforço e a companhia de dois modestos instrumentistas (eu e um amigo irmão) de pureza e criatividade sem igual, nos modelamos.
Sem perceber, viramos perfeccionistas ao extremo. Ensaiávamos 5, 6, 7 horas para uma missa. Cada domingo era uma data importante e os sábados nós tratávamos o salão da igreja como um estúdio abençoado. E era mesmo. Tinha tudo que precisávamos e de qualidade. Além disso, nos sentíamos tão seguros e certos do que estávamos fazendo. Uma coisa que só a sabedoria de Deus poderia explicar.
Acabamos fazendo escola. Os ensaios dos demais grupos, que já não eram curtos, ficaram ainda mais longos. Algumas vezes abríamos a igreja umas 2, 3 da tarde e a fechávamos já de madrugada. Ensaiando ponto a ponto de uma canção, tentando modelar a música de um jeito não para nos agradar, mas para ficarmos radiantes. 
Terminávamos felizes e morrendo de ansiedade para no dia seguinte irmos chegando logo cedo na igreja um a um. Com amontoados de letras, cifras e partituras, montávamos o som e passávamos música por música. Era uma verdadeira insanidade sonora... Não pergunte a ninguém que lá tocava o segredo de tudo aquilo. Tinha um jeito natural fora do comum.
Os dedos desciam pelo braço do violão. A palheta tocava corda por corda sem errar. O baixo deslizava suave. A bateria era leve e imponente. E as vozes estavam afinadas e vibrantes. Deus estava operando...
Hoje, anos depois, não me sinto tão vivo quanto antes. Bem provável aquela facilidade toda tinha prazo curto de validade. Ainda sou jovem, mas a essência para aquilo dependia de mais. Apenas de 14 ou 17 anos. Só isso.
A magia de tudo aquilo nunca saberei explicar.
Marcos Ferreira Silva

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Em um minuto

Na última vez em que se viram... bem, acho que eles não se lembram da última vez em que se viram. Provavelmente devem ter pensado que iriam se ver de novo na semana seguinte. Mas não se viram.
Então, quando nem imaginava, ao descer do ônibus que rotineiramente o levava em seu percurso, esbarrou nela. Foi uma surpresa de verdade. Parou para observá-la um instante. De uma ponta a outra do cabelo trançado. Aquilo não tinha mudado. Nem as tranças, que ela enrolava cuidadosamente com o dedo indicador, nem ele, que continuava gostando de observá-la de longe.
Notou, sem maiores pretensões, que estava mais encorpada. Coisa que reparou, pois a moça que roubava sua atenção era muito lembrada por seu corpo esbelto. As graciosas curvas, não desenhadas antes, eram naturalmente encantadoras. Linda como sempre, mas agora com um ar mais sério no rosto. A garota hoje é uma mulher. Daquelas que impunham respeito sem dizer sequer uma palavra.
Contudo, ela não tinha ganhado em tamanho, continuava com sua baixa estatura, adjetivo que sempre aumentou seu poderio de enfeitiçar os garotos. Ainda causando um misto de sentimentos sobre quem era aquela menina, ela abraçava o seu caderno e olhava o horizonte pensando. Dava entender que viajava no seu presente, passado e futuro. Algo particular demais para alguém ousar descobrir.
Talvez, em sua mente tocava-se uma canção do Stereophonics, ou não. Enquanto ele, bobo, fazia toda sua análise sem perceber que tudo não passava de uma fração de segundo. Num impulso, movido por uma inocente felicidade, ele diz:
– Oi! Quanto tempo!
Ela responde com a mesma expressão que ele usou, mas completa com o seu típico e particular:
– Pois é, né!
Vasculha os dedos dela à procura do que todos sabiam que tinha sido aderido.  Ele acha e se surpreende, mesmo sabendo que aquilo era um fato consumado.
– Casou, não é?
– Né!
A conversa não era uma conversa sem sal, como parece até aqui. Talvez faltassem palavras para serem usadas naquele instante. Os dicionários ficam muito defasados nessas horas.
Além de tudo, ele se martelava em silêncio enquanto sorria. Lembrava não da última vez em que se viram, mas um pouco antes daquele discreto hiato. Daquela falta que ninguém ousava dizer que sentia, nem mesmo se permitia pensar muito. Era fato um pouco ignorado.
Mas, naquele momento, ele lembrava dela com uma de blusa listrada, grossa para proteger-se do frio. Também lhe veio em mente uma imagem de si próprio, com uma jaqueta marrom sobre a típica camiseta preta.
Pouco depois de posar para uma foto, ela hesitava em dizer algo naquela noite. Parecia que esperava ser beijada. Ela sempre esperava aquilo. Ele, por sua vez, não conseguia ser o sujeito que iria saciar o seu desejo. Ele vivia com um defeito grave que impedia de se preocupar com aquilo. De se permitir arriscar a encontrar os seus lábios. Era outra coisa. Ele sempre tinha outra na cabeça.
Mas agora, anos depois, ele se martirizava por lembrar de uma frase da linda garota de cabelos cacheados. Ela tinha dito, e disse que só diria para ele, porque não queriam que dissessem dela para os outros, então disse num sussurro o que ele não esqueceu que ela disse:
– Não quero voltar para ele. Sempre volto, eu sei. Mas eu não o amo...
Ele não esqueceu.
Quando ele resolveu pensar novamente em se verem, pegar um telefone, mudar o cenário, conhecer seus lábios... ela o interrompe:
– Tenho que ir... Tchau...
E correu para a garupa de uma moto e abraçou o homem que ela sabia que não amava.
O sujeito que não olhou para o lado deve ter lembrado dele. Muito provável o indivíduo deve ter murmurado alguma coisa quando chegaram em casa.
Já o rapaz tratou de recuar e ir atrás do ônibus que o ajudaria a terminar o percurso até sua casa, torcendo para que o tal marido da linda menina nada dissesse do incidente casual. Que apenas a amasse, porque era tudo o que ela merecia. Uma pena que ela só achasse esse sentimento nos braços de quem não queria...
Fazia muito tempo que eles não se viam. Anos, de verdade. Isso parece um pouco estranho porque depois de um tempo ele perdeu alguns contatos, e esqueceu de quem achava que não esqueceria. Mas era um pouco tarde...

Marcos Ferreira Silva

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Sonhos de uma sexta


Ainda não passava das sete da manhã e o calor já demonstrava seu poderio, porém, graças ao sol ainda parcialmente ausente, uma leve brisa fresca confortava as primeiras horas daquela sexta-feira.
A noite anterior tinha sido de ventos fortes, arrancando o caule de algumas árvores e assustando moradores perto de barrancos. Apenas sustos. O vento não era premonição de uma forte chuva. As negras nuvens de São Pedro não choraram por sobre os prédios da cidade. O vento apenas desarticulou o insuportável calor de 32,1 graus centígrados e fez a cidade triste e suada dormir em paz.
Agora, parado no trânsito, percebo algo interessante. Um carro passa e atrás, logo acima do nome do modelo do veículo, um adesivo. Um adesivo com um desenho. O desenho de uma família. Vovó, papai, mamãe e três crianças em escadinha. A menor era uma garota ao lado de dois rapazotes. Formato infantil e ‘familiar’ para quem olhasse. Ou não.
Pouco depois vejo um outro veículo com um adesivo similar posicionado no mesmo lugar que o do carro anterior. Este era um pouco diferente. Tinha apenas pai, mãe e uma criança. Sorrisos largos animadores.
Notei que havia um certo padrão no esquema dos desenhos ao ver o terceiro, mas apenas na ideia. Eram personificados. O que contemplava agora tinha o formato “South Park”, mas era de natureza extremamente ingênua.
Famílias. Muitos não sabem o que é isso, outros ignoram a que tem. Fazem gato e sapato e chama tudo isso de babaquice.
Esperava que não, mas talvez para alguns deles aquele adesivo era só um adesivo. Nem se lembravam que tinham o posto ali.
O trânsito engasgava na ponte. Pouco andava. Parei pra pensar: o que cada um em seus carros poderia estar pensando naquele instante. Alguns deviam sussurrar nomes em sua mente, pedindo em seu íntimo que estivesse bem longe dali, que já fosse seis da tarde. Alguns queriam largar tudo, chamar os ventos, expulsar o calor e se acalmar num inóspito copo de cerveja. Sonhavam com a embriaguês. Outros queriam amar. De corpo, alguns de alma, e bem pouco de coração. Alguns, igual a mim, só queriam paz... Queriam família.

Marcos Ferreira Silva